
O MERCADO SÃO BRAZ
Alcir Pimenta*
Introdução
No século XX, por cerca de 40 anos, a partir dos primórdios da década de 20, até o final dos anos 50, desenvolveu-se no Sertão Carioca e na Baixada Fluminense um grande entusiasmo pela plantação de laranjas. É que o mercado era promissor e a terra correspondia plenamente, proporcionando à nossa laranja um sabor incomparável, com enorme aceitação até mesmo no mercado internacional.
Foi um período de assinalável prosperidade para a região, criando-se um crescente mercado de trabalho para a mão de obra não qualificada, constituída sobretudo por jovens recém-saídos do serviço militar e convocados a trabalhar na colheita de laranja. Eram os chamados “sabiás” que cantavam nos laranjais da Zona Rural carioca. Nos barracões de beneficiamento, as chamadas packing houses, colocados em pontos estratégicos da comunidade, as frutas eram rigorosamente selecionadas e embaladas para o mercado externo, principalmente Argentina e Inglaterra. Ali o sexo feminino tinha prioridade na contratação, pela delicadeza da tarefa.
Com a elevação do padrão de vida da população, o comércio cresceu e sofisticou-se, imensas fortunas se fizeram, ergueram-se belas residências, e era intensa a movimentação nas ruas e estradas, muitas das quais ainda sem asfalto e iluminação pública, por onde caminhões e mais caminhões trafegavam o dia inteiro transportando o nosso tesouro agrícola colhido nos infindáveis e verdejantes laranjais, que, ao longe, lembravam os verdes mares bravios da nossa costa. A laranja tornou-se um símbolo tão marcante da nossa região que as noivas da época usavam grinaldas e buquês feitos de botões de flor de laranjeira, aromatizando o ambiente com seu perfume suave, ali sinônimo de alegria, beleza e fartura. Foi um período áureo, com notável influência no cenário político do Rio de Janeiro Tínhamos Senadores e Deputados Federais, e os Presidentes Epitácio Pessoa e Washington Luís visitavam amiúde a comunidade.
Eclodiu, porém, a Segunda Guerra Mundial. Submarinos alemães torpedearam navios brasileiros na costa do Atlântico, e o Brasil viu-se forçado a entrar na guerra. Eliminou-se assim o mercado estrangeiro para a nossa laranja, embora a produção aumentasse e a fruta apodrecesse no pé. Foi a derrocada. Prósperos lavradores foram à falência, muitos tiveram de entregar suas terras pela dívida e buscaram outra atividade, alguns quase foram ao desespero. O desemprego grassou pela comunidade. Só escaparam do desastre os que diversificaram suas atividades comerciais ou empregaram muito bem os lucros até então auferidos. Nessa ocasião, surgiram os loteamentos.
Como se não bastasse essa tragédia, que transtornou por completo a vida no Sertão Carioca e na Baixada Fluminense, deu-se o colapso na citricultura local, resultante da praga nos laranjais, o que pode ser considerado o primeiro grande desastre ecológico no Rio de Janeiro, seguido, mais tarde, pelo desastre ecológico na Pedra de Guaratiba e em Sepetiba. Alijada do comércio exterior, não havia mais laranja nem para o mercado interno.
À medida que escasseavam os recursos oriundos da agricultura, reduziram-se os cuidados com os laranjais, antes tratados com zelo especial, o que os fez definhar a pouco e pouco. Para agravar ainda mais a situação, surgiu entre nós a “mosca do Mediterrâneo”, trazida pelos navios envolvidos na Segunda Guerra. Essa mosca punha ovos na fruta, eliminando-lhe o sabor e a qualidade, apodrecendo-a no pé. Além disso, a malária alastrava-se perigosamente no Sertão Carioca e na Baixada Fluminense, enquanto os norte-americanos, empenhados na Guerra do Pacífico, aplicavam com êxito o DDT nas selvas asiáticas, para eliminar os mosquitos Anopheles, transmissores da malária, que dizimava o exército aliado na luta contra os japoneses.
Foi então que, no Governo Getúlio Vargas, o Ministro Fernando Costa promoveu as obras de saneamento da Baixada Fluminense, determinando a aplicação do DDT nos campos, nas plantações e nas restingas, obtendo resultados surpreendentes. Mas o DDT exterminou também insetos úteis para equilíbrio ecológico, como a joaninha, por exemplo, e assim, por uma alteração significativa do meio ambiente, uma agressão a todo um ecossistema, reduziu-se ainda mais a qualidade da lavoura, o crescimento saudável e a maturação das frutas, exterminando, por fim, até mesmo as laranjeiras, vitimadas por bactérias, fungos e mais o mato ao redor, já que rareavam recursos até para a capina, enquanto a sapetuba e a tiririca tomavam conta do terreno. E a fumagina aplicou o golpe de misericórdia na vastidão dos laranjais: folhas negras, laranjas escuras, sem valor comercial e impróprias para o consumo. Veio então a total decadência, predominando o matagal em meio ao laranjal ressequido, coberto de ervas de passarinho. Enfim, havia até miséria onde outrora prevalecia a fartura. Era a desolação, que o poeta assim cantou:
“Guaratiba
Foi-se tudo de bom que ali havia…/ Onde os bosques, os arvoredos,/ onde dos adultos os folguedos/ que a dureza da vida sepultou?/ Quem não se lembra, ó gente,/ dos seus carnavais?/ Chico Pimenta à frente,/ atrás lindas morenas colossais./ Quem não recorda aquele tempo de esplendor?/ Laranjais sem fim,/ laranjas para o mundo,/ um tal Caldeira Vereador./ Triste é ver a terra que se ama/ em tanta atonia mergulhada./ Não mais a alegria dos cortiços,/ não mais da amizade os feitiços,/ tudo em Guaratiba se findou./ Gente fala da gente que era amiga,/ gente boa em má se transformou./ Será isso sinal de desencanto,/ ou será do sofrimento o pranto/ que pela terra se espalhou?/ Se é dor que mora em cada peito/ e faz até morrer no coração o amor,/ é tempo de arranjar um jeito,/ antes que rosa já não seja rosa/ e se prefira o espinho à flor.”
A nova fase
…“Assim se explica, pois, o surgimento do embrião do Mercado São Braz. Campo Grande era o centro comercial mais desenvolvido de toda a atual Zona Oeste do Rio de Janeiro, em torno do qual gravitavam os subúrbios vizinhos, para ali afluindo os que buscavam melhor comércio ou melhores escolas ou lazer. O nosso Calçadão de hoje era a Rua Coronel Agostinho, a principal do bairro, a mais procurada pela excelência do seu comércio em relação aos demais bairros e subúrbios.
Corria o ano de 1948. Os pequenos produtores rurais, os mais sacrificados com a decadência da lavoura, andavam à procura de um meio de sobreviver vendendo os seus produtos, enquanto muitos haviam substituído verduras e legumes por laranjais, o que piorava ainda mais a crise, razão pela qual se reuniam todos com frequência, à procura de uma saída. Conversa vai, conversa vem, alguém lembrou que, na própria Rua Coronel Agostinho, havia um terreno baldio, em local bem central, que talvez pudesse ser usado para dar início a um ponto de venda de produtos agrícolas. Cerca de 50 lavradores foram à luta. Limparam a parte do terreno suficiente para sua instalação e se “estabeleceram”, a princípio timidamente, expondo seus produtos em cima de caixotes, alternando-se pequenos grupos da Ilha, do Rio da Prata, do Mendanha e do Carapiá, como teste. Esse terreno (descobriram) pertencia à Prefeitura.
E tiveram êxito. A pouco e pouco foram formando a freguesia, o número de lavradores foi aumentando e o negócio vingou. E por quê? Porque a mercadoria era de boa qualidade e Campo Grande já se insinuava como importante centro consumidor. Diante do resultado obtido, decidiram os lavradores solicitar permissão da Prefeitura para usar todo o terreno, o que foi concedido. Surgiu então no local uma espécie de feira-livre, mas agora com barracas padronizadas, de madeira, cobertas de lona, divididas em duas alas de chão batido. Quando chovia, se a freguesia aumentava um pouco mais, embaraçavam-se os guarda-chuvas e as sombrinhas, na pressa com que a clientela queria fugir da chuva. Às vezes, os embaraços eram motivo de risos e gracejos, outras vezes causavam pequenos atritos sem maior conseqüência.
Animados com o crescimento daquele comércio, do qual passaram a viver, resolveram os comerciantes construir um mercado propriamente dito, o qual foi edificado, a pouco e pouco, com os recursos do grupo que liderara aquele movimento. Inauguradas as novas instalações, já no Governo Carlos Lacerda, deliberaram os proprietários dos boxes instalar uma Assembléia-Geral para a constituição da “Sociedade Mercado São Braz”, o que ocorreu no dia 17 de setembro de 1963, nas dependências da “Imóveis Comércio e Indústria Campo Grande S.A.”, na Rua Coronel Agostinho, 116, em Campo Grande, sob a presidência do Sr. Emiliano Rezende de Arruda, proprietário do box 75 e presidente da comissão organizadora dos estatutos da entidade. Desde então, o Mercado São Braz foi-se tornando cada dia mais útil e indispensável à comunidade …
A verdade é que, no seu meio século de existência, o Mercado São Braz constitui um marco na História da comunidade, desempenhando importante papel socioeconômico, não só pelas centenas de famílias a que serve direta ou indiretamente, mas também pela sua inestimável participação nos eventos comunitários. Convém assinalar, ainda, a sua importância social para a comunidade carente, a qual assiste sempre com doações e outros cuidados, além de dar preferência aos candidatos a emprego oriundos dessa camada da sociedade, estimulando ainda, nos seus empregados, o aperfeiçoamento profissional e intelectual, não sendo poucos os que, ali iniciados, alçam vôos mais altos, para melhor servir a si próprios e à região.
Outro aspecto a considerar é que esse mercado, tendo-se originado para atender à população campo-grandense, sempre foi também utilizado por pessoas de diversos pontos da Cidade Maravilhosa, já que muitos turistas da nossa região praiana, ao se dirigirem a suas residências de veraneio, passam antes pelo Mercado São Braz, onde se abastecem de frutas, verduras, legumes, carnes, peixes ou flores. Ressalte-se, por derradeiro, o zelo dos seus dirigentes em renovar constantemente o aspecto físico do mercado, adaptando-o aos novos tempos, sem descaracterizar-lhe o traçado original, o que faz dele, também sob esse aspecto, uma referência na comunidade. “
Em 28 de outubro de 2011, o Mercado São Braz foi vítima de um incêndio iniciado em supermercado vizinho, sendo parcialmente destruído.”
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Daqui para a frente será contada uma nova história tendo em vista o ocorrido, que este tempo corra e que os comerciantes e funcionários do Mercado São Braz retornem a este chão o mais breve possível.
Malu Ravagnani
*Alcir Pimenta é professor de Língua Portuguesa, ex-Deputado Federal pelo Estado do Rio de Janeiro e morador de Campo Grande.